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Praças deveriam ser obrigatórias

Porque a vida também precisa de espaço para correr, sentar, cair no chão e simplesmente ser.

Porque a vida também precisa de espaço para correr, sentar, cair no chão e simplesmente ser.

Hoje eu queria escrever sobre um sentimento.

Um sentimento que nasce do fato de que eu amo morar perto de praças.

Às vezes fico pensando que, assim como existe a ideia — e até leis — que garantem uma escola próxima da criança, talvez também devesse ser obrigatório ter uma praça por perto.

Não como dever.
Mas como direito.

E é importante dizer isso com clareza: a escola é fundamental.
Ela é espaço de aprendizado, de formação, de socialização, de construção de pensamento, de desenvolvimento.

Não desmereço a escola — pelo contrário, reconheço o quanto ela é essencial para a vida.

Mas a escola carrega, inevitavelmente, obrigações.
Horários, tarefas, regras, avaliações.

Mesmo quando existe recreio, mesmo quando se fala em fazer amigos e viver experiências, ainda há uma estrutura que organiza, direciona e cobra.

A praça não.
A praça é o oposto disso.
Ela não exige desempenho.
Não pede produtividade.
Ela simplesmente existe.

Na praça, você corre sem saber pra onde.
Dá cambalhotas.
Cai no chão.
Sente a terra molhada, o cheiro das plantas, o vento no rosto.
Rir é permitido.
Silenciar também.

Eu sempre morei perto de praças.
Quando criança, eu corria nelas feito papa-léguas, sem medo do tempo, sem compromisso com nada além do próprio corpo em movimento.

Na pré-adolescência e adolescência, as praças mudaram de função.
Viraram bancos, conversas longas, risadas com amigos, observação da vida passando.

Hoje, na vida adulta, eu caminho pelas praças com meus cachorros.
Observo as pessoas.
Crianças brincando, idosos sentados, encontros acontecendo sem ensaio.
E como isso é bom.

A praça sustenta algo que o cotidiano insiste em nos roubar:
o direito ao ócio, ao lazer livre, à experiência sem objetivo.

Ali se fazem piqueniques, apresentações espontâneas, arte, encontros, despedidas.
Ali a vida não é só trabalho, estudo, contas, preocupações.
Ali, por alguns minutos, você pode apenas ser.

Eu moro em uma cidade conhecida pelas praças — existe até uma brincadeira sobre isso.
Mas, brincadeiras à parte, isso é um privilégio enorme.
Porque são esses espaços que mantêm a cidade viva, respirando, criando.

Talvez por isso eu pense tanto nisso.
Praças deveriam ser obrigatórias não por lei,
mas porque a vida precisa de lugares onde ela não precise se justificar.

Na praça, ninguém precisa provar nada.
Você não é currículo, função ou desempenho.
Você é corpo, presença, riso, silêncio.
E isso, por si só, já é muito.