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O veneno vai contra o veneneiro

Uma frase dita no meio de um jogo de Uno que ficou marcada na minha memória.

Esperar e aceitar.

Passei boa parte da minha infância sem conviver com a família paterna. Na verdade, durante muito tempo, o único contato que eu tinha com esse lado da família era uma prima que às vezes encontrava comigo na praça em frente à minha casa.

Quando eu já estava na pré-adolescência, por volta dos 13 ou 14 anos, decidi me aproximar mais deles. Eu pensava que, mesmo não tendo convivido com meu pai, os outros familiares não tinham culpa disso.

E um dia a casa da minha avó estava cheia.

Era uma casa que sempre recebeu muita gente. Não necessariamente pelo tamanho físico, mas pelo tamanho do coração da minha avó. Sempre tinha alguém chegando, alguém conversando, alguém sentado na sala.

Naquele dia tinha bolo, pipoca, almoço e todos os netos reunidos.

Nós sentamos no chão da sala e começamos a jogar Uno.

Entre um +4, um bloqueio e um sete silencioso, o jogo foi ficando cada vez mais caótico. A gente se provocava, ria, tentava prejudicar o outro e salvar a própria mão.

Em determinado momento, nós demos tanto a carta +4 (que significa pegar +4 cartas do baralho) para o meu irmão que ele ficou praticamente com metade do baralho nas mãos.

Até que apareceu uma carta de trocar de mão.

Ele olhou para as cartas dele, olhou para o restante da mesa, escolheu a pessoa que tinha apenas uma carta na mão e disse, com toda convicção:

“O veneno vai contra o veneneiro.”

Provavelmente ele queria dizer “o feitiço virou contra o feiticeiro”, mas aquela versão ficou muito melhor.

Ele trocou de cartas, ficou com uma mão quase vazia e ganhou o jogo.

Mas o que ficou mesmo foi a frase.

Até hoje eu penso nela.

Naquele dia a gente estava sentado no chão da casa da minha avó, depois do almoço, rindo, jogando cartas e sendo apenas netos da dona Maria José.

E aquela frase ficou rodando na minha cabeça como uma espécie de justiça poética improvisada.