fui convidada para realizar uma palestra em uma grande multinacional do ramo de bebidas. O tema era Setembro Amarelo. Não é novidade para ninguém que, nos últimos anos, essa pauta também se tornou estratégia de marketing. E, em certo ponto, considero positivo: quando a comunicação consegue dar visibilidade a um assunto tão importante, pode sim gerar impacto.
Mas é preciso ser clara: fazer uma palestra não é apenas estar presente por uma hora. Envolve preparo de conteúdo, estudo, adequação ao público-alvo e, acima de tudo, responsabilidade ética. O próprio Conselho Regional de Psicologia (CRP) orienta que palestras, cursos e workshops devem ser remunerados, pois fazem parte da prática profissional. Não são favores. São trabalho.
Ainda assim, mesmo após três anos de experiência, continuo me deparando com empresas — grandes empresas, com recursos de sobra — que pedem esse trabalho de forma gratuita. Curiosamente, são justamente as pequenas empresas e projetos sociais, muitas vezes com recursos limitados, que fazem questão de reconhecer e valorizar nosso trabalho.
E aqui está o ponto central: em muitos lugares, o Setembro Amarelo não é tratado como deveria — uma oportunidade real de reflexão e transformação. Ele vira apenas um “check” no cronograma de marketing. Até aí, poderia ser apenas uma estratégia de comunicação. O problema é quando não existe sequer um orçamento destinado a algo tão essencial. É difícil acreditar que organizações desse porte não tenham verba para uma ação que pode salvar vidas.
É importante reforçar: Psicologia não é apenas amor. É ciência, é profissão. É o pão na mesa, a conta de luz, o aluguel, a formação contínua. Escolhi a Psicologia como minha carreira, não como um hobby.
Por muito tempo, ouvi que deveria “mostrar meu trabalho” de graça. Fiz isso. Ainda faço, em alguns contextos — especialmente em projetos sociais sérios, que não têm recursos, mas têm compromisso. A diferença é que, hoje, entendo que mostrar meu trabalho também significa ser remunerada por ele, com a qualidade e a responsabilidade que ele exige.
Se realmente queremos falar sobre saúde mental, precisamos ir além do discurso bonito. Investir em Psicologia é investir em pessoas. E isso tem valor.